Os parques reabriram na capital paulista depois de mais de 120 dias com seus portões fechados e eu aproveitei a oportunidade para matar as saudades de correr entre as arvores e no chão batido. Correr no asfalto não é a mesma coisa, pois o impacto nos joelhos é maior e a gente precisa disputar espaço com carros, motos e bicicletas que também circulam pelas ruas e avenidas da cidade.
Nas primeiras semanas da quarentena eu nem ousei colocar o nariz para fora de casa e me exercitei por aqui com aulas virtuais, mas passado três meses de confinamento eu resolvi cruzar o portão frontal para passear com o Almondega.
Agora, nada comparado com as sensações sentidas com essa travessia de hoje. Antes mesmo de adentrar ao local, meu coração estava em pleno carnaval e a ansiedade me mordiscava o estomago.
Antes disso, eu precisei respirar profundamente para pisar com o pé direito no espaço. Os exercícios de alongamento para acordar o corpo já tinham sido feitos e eu e o Fe precisávamos somente ajustar nossas mascaras antes de dar a partida definitiva para a aventura.
O receio inicial era do que viria pela frente e quem nós encontraríamos por lá. Combinamos de não diminuirmos nosso ritmo e nem pararmos para cumprimentar ou conversar com amigos e conhecidos que, por ventura, estivessem circulando pelo parque.
De longe, ouvimos a canção criada pelo bambuzal que nos atraiu para sua entrada como um verdadeiro canto de sereia. Entretanto, a sensação de torpor aconteceu alguns segundos antes e foi intensificada pela aproximação com as estufas de plantas e com o contato com as rajadas flatulentas dos canteiros de dama da noite e de jasmim.
Nossa! Até disso eu estava com saudades!
E vi graça em cenas corriqueiras como a marcha das formigas, a curiosidade de uma família de calangos que insistiu em acompanhar nossas primeiras passadas e a fome desentupidora de beija-flores nas plantas.
O problema foi que passados uns 30 minutos que estávamos correndo como se não houvesse amanhã, comecei a sentir o peso da atividade e dificuldades em respirar com a máscara facial.
Na intenção de reforçar as medidas protetivas, a vovó confeccionou máscaras com três camadas de tecido, exigindo um esforço pulmonar extra aos seus usuários.
Fui desacelerando, desacelerando até que parei por completo de correr, mas fiz questão de esperar que o Fê finalizasse seu treino pessoal sentada sob a sombra da copa de uma árvore centenária.
Durante esses minutos, me lembrei do meu livro preferido de infância, intitulado “A árvore generosa” e deixei que algumas lágrimas brotassem em meus olhos e carregassem consigo tudo o que estava represado internamente e o que tentei esconder durante meses por baixo de tantas outras máscaras.
E como eu não tinha levado uma extra para fazer a troca, a solução foi levantar acampamento e voltar para casa antes do previsto, mas já deixei agendado com o Fê a nossa próxima sessão de oxigenação natural.
Beijos,

Maria Oxigenada
Foto: reprodução