O estilista Simon Porte Jacquemus nadou contra a correnteza, assim como fazem os peixes durante a piracema, com o intuito de desovar, ou melhor, apresentar a sua nova coleção, pois o artista não cedeu à sedução do virtual e mostrou em show presencial, realizado no meio de uma plantação de trigo.
Respeitando as regras de distanciamento social, os 100 convidados foram integrados completamente ao cenário bucólico, perceptível especialmente nas imagens aéreas feitas pelos drones usados para registrar o evento.
E diferente dos desfiles tradicionais, a passarela construída para a ocasião era enorme e sinuosa, obrigando os modelos a caminharem por metros a fio. A tortura só não foi maior para eles porque a maioria das produções era pé no chão e contou com protótipos de sandálias baixas, rasteirinhas e chinelos estilo slide.
O despojamento da coleção foi confirmado pelo uso de tecidos de fibras naturais como algodão e linho na elaboração dos looks veraneios e pela presença de aplicações feitas com canutilhos de bambu, saias bordadas com miçangas ou peças com aplicações de talheres de mesa, bules de café ou pequenas frutas vermelhas.
Já o mix criativo foi observado com a presença de peças com recortes interessantes, outras com amarrações, além de mini camisas sociais, macacões curtos com golas de marinheiro, calças de cós alto, tops cropped com mangas bufantes, bustiês xadrezados e umbigos à mostra.
A diversidade de tipos físicos e étnicos presentes no desfile foi outro ponto que não deveria chamar a atenção, mas continua surpreendendo vez ou outra e, nesse caso, o encontro fashion contou com mulheres curvilíneas, outras de estatura inferior ao padrão ostentado por modelos de passarela, bem como modelos negros e alguns orientais que completaram o balaio da moda que primou por trabalhar com uma cartela de cores neutras e que bem conversavam com o cenário, tais como: branco, amarelo, nude, goiaba, marrom, menta e preto.
O ritmo das passadas dos modelos no meio da plantação foi construído, primeiramente, com o barulho de água caindo, depois com músicas instrumentais tiradas do bandolim e da viola e, por fim, com um belo fado português criado em parceria com uma guitarra portuguesa.
Agora, nada se compara a imagem do fechamento do desfile com a marcha feita pelos modelos enfileirados, tendo como pano de fundo o pôr do sol francês, no meio do trigal e com o vento local ondulando discretamente os galhos de trigo. Lindíssima!
E para quem achou que seria uma afronta aos dias atuais e de pandemia a realização de um desfile presencial, este veio para nos dizer que o evento foi algo bem pensado, realizado e um presente para todos nós! A verdade é que estávamos carentes desse calor humano, com saudades do buchicho fashion existentes e com vontade de resgatar a cultura tradicional da moda.
Eu amei!
Maria Oxigenada
Foto: reprodução