Os tempos mudaram no mercado de trabalho e isso é um fato! Atualmente, todo mundo anda se desdobrando para manter as contas no azul e o mesmo padrão socioeconômico ostentado no passado e por nossos pais e avós.
A impressão é de que há um verdadeiro colapso do emprego formal e a informalidade esta tomando conta da dinâmica do nosso dia-a-dia. O problema é que com ela há a precariedade dos direitos trabalhistas conquistados e o aumento das obrigações dos empregados ou colaboradores, além da abertura de fissuras nas convenções sociais.
“Você não estava aqui” acompanha a dinâmica de uma família, especialmente de seu patriarca Rick Turner (Kris Hitchen) que após passar anos desempregado e fazendo bicos resolve investir em uma franquia de entregas, trabalhando como motorista desta.
Para isso, ele precisa vender o carro usado de sua esposa Abbie (Debbie Honeywood) e dar o dinheiro adquirido como entrada na compra de um furgão, além de assumir um financiamento de longo prazo para o pagamento do veiculo.
Entretanto, suas obrigações são enormes no novo emprego e Turner precisa trabalhar 14 horas por dia sem gozar dias de descanso ou paradas para ir ao banheiro ou almoçar. Loucura total!
E caso ele precise faltar ou se ausentar no trabalho por algum motivo, o protagonista precisa encontrar um substituto para a realização de sua rota de entrega e ainda pagar uma multa para a franqueadora de $ 100,00 libras/dia.
É claro que essa rotina puxaaaada respinga no seu bem estar e no equilíbrio familiar porque além dele, o dia a dia de Abby também não é fácil, pois a matriarca da família é cuidadora de idosos e de pessoas com deficiências e cumpre uma jornada insana, superando oito horas de trabalho estipulada por lei.
Os filhos começam a sentir a ausência dos pais, rebelando-se contra eles, especialmente o adolescente Seb (Rhys Stone) que além de bater de frente com os dois, começa a praticar pequenos delitos para chamar a atenção da dupla. Já a pequena Liza Jane (Kate Proctor) reage diferente, volta a fazer xixi na cama e ter problemas para dormir sozinha, mesmo com 11 anos de idade.
Dirigido por Ken Loach, o filme é um soco no estomago de qualquer espectador, pois os episódios vistos são muito reais, próximos do que acontece pelas ruas do Brasil, apesar da obra ser ambientada em 2008 e em Newcastle upon Tyne (U.K.).
Ela conta com vários pontos altos, especialmente sua fotografia que privilegia o uso de luz natural, de câmeras junto aos atores, de enquadramentos feitos em
seus rostos e dentro de casa que potencializam ainda mais as angustias familiares e as dores físicas dos personagens.
Não preciso nem dizer que ao longo dos minutos há o degringolar da película e ela apresenta um final surpreendente e muito triste! Mas a aventura é das boas, especialmente porque toca em temáticas importantes como a modernização dos valores capitalistas, no choque de gerações, na falta de humanidade de pessoas de nosso convívio, dos abusos praticados em todas as esferas sociais e, principalmente, nas dificuldades em alicerçar a criação e formação dos filhos hoje.
Em relação às atuações, o quarteto principal segura bem os dramas vividos pelos seus personagens, mas o destaque da película recai sobre a atriz Kate Proctor que consegue construir sua Liza com sensatez e equilíbrio atípicos para sua idade. A cena em que a atriz divide com os pais ficcionais e que dialogam sentados à mesa da cozinha de casa é de encher os olhos de lágrimas. Linda!
E apesar de “Você não estava aqui” ser uma obra pesada, eu gostei e a indico!

Maria Oxigenada
Foto: reprodução