Como não parar e assistir a uma peça que carrega este nome? Só o titulo já é um convite para embarcar na aventura, mas agora imagine o que está por trás dele e o que recheia o monólogo protagonizado pela atriz Lucélia Sérgio, integrante da companhia teatral “Os Crespos”?
Imaginou? Ainda não? Então, prepare-se que lá vem história das boas. A artista em cena se desdobra em varias personagens na intenção de retratar questões no universo feminino, especialmente a realidade enfrentada pelas mulheres negras da periferia de grandes centros urbanos e que fazem de tudo para modificar seus destinos.
O espectador fica diante da puta, da alcoólatra, da moradora de rua, da catadora de lixo reciclável, da prisioneira, da lunática, da rainha de bateria de escola de samba e também de uma dona de salão de beleza.
No entanto, o buraco cavado pela obra é mais profundo e, aos poucos, nós vamos tomando ciência sobre suas trajetórias de vida, de como elas sofreram em suas infâncias e quando algumas foram abandonadas e abusadas pelos próprios pais ou já adultas foram vitimas de violência domestica, de humilhações e de episódios de estupro marital.
Isso sem contar na fome e na pobreza que foram e são suas companheiras desde sempre, além da necessidade de tirarem forças de não sei onde para seguirem em frente de cabeças erguidas e com vontade de vencer.
As consequências dessa postura firme são cicatrizes grossas espalhadas pelos corpos e almas dessas mulheres, além da perda por completo de sonhos românticos, ambições juvenis e do cansaço evidente dos anos vividos porque como diz a protagonista em certo momento da obra: ser forte cansa!
Agora, o que não cansou em nenhum momento foi observar a agilidade interpretativa da atriz Lucélia Sérgio, pois ela demonstrou ser uma camaleoa diante das câmeras, vestindo rapidamente a pele de sua próxima personagem e trocando suas características e os dramas vividos.
É claro que para isso acontecer teve a colaboração de uma cenografia bem construída com a projeção de imagens ao fundo, a adoção de algumas músicas instrumentais para compor a trilha sonora da obra, bem como efeitos especiais como a criação de rajadas de ventos, além da presença de manequins simulando crianças paridas entre um sonho e outro e amantes conquistados pelas ruas ou biroscas das periferias.
O figurino da peça também é outro destaque do espetáculo, valendo-se do uso de sacos de lixo até da sobreposição de peças para alcançar os efeitos esperados como a réplica de uma barriga de grávida. Além disso, a utilização de acessórios ajudou na complementação das camadas ostentadas por cada uma das personagens que não dialogavam entre si, mas que possuíam anseios semelhantes.
“Engravidei, pari cavalos e aprendi a voar sem asas” é aquele tipo de espetáculo que transpira drama por todos os seus poros, de difícil digestão, porém necessário nos dias atuais porque é repleto de episódios ainda presentes na vida de muitas de nós e que continuam deixando retrogostos amargos, mas que podem sim ser superados com a passagem do tempo.
Para quem deseja ficar diante de um monologo que tem como finalidade retratar a vida como ela é de fato, eu indico a obra.
Eu gostei!
Maria Oxigenada
Onde assistir: através da programação “Fica em casa com Sesc” no Youtube
Foto: reprodução