Tá difícil, Oxigenadas! Eu estou com claustrofobia de ficar em casa. Acostumada a ir e vir e circular à vontade pela cidade, além de bater ponto semanalmente em estreias de filmes, peças teatrais, musicais, espetáculos de dança e exposições de arte, eu ando fazendo o possível para não enlouquecer nesses tempos de coronavírus.
Agora, sem sombra de dúvida o pior é não poder frequentar a academia e extravasar a energia acumulada diariamente em atividades físicas. Por enquanto, tenho andado de patins com o Fê, corrido pelas ruas do bairro e me exercitado ao ar livre sozinha, mas meus joelhos já gritaram e estão implorando para que eu caia na água clorada.
Na verdade, as ruas têm sido um presente para mim! E nesse pouco tempo eu ando acumulando novas histórias, pois apesar da paradeira paulistana e da desaceleração geral nas vias rápidas da cidade, eu tenho me surpreendido com os conteúdos das ruas de dentro que continuam vibrantes!
Ontem, eu saí para dar um passeio com o Almôndega e aproveitei para passar na padaria do bairro. No trajeto de volta para casa, eu vi um catador de papelões e reciclados bater com um pedaço de ferro no mendigo do bairro. Congelei!
Não sabia o que fazer, se gritava por ajuda ou se fazia a Kátia e fingia que nada estava acontecendo e desviava meu retorno para casa. O catador vociferou em alto bom som que o mendigo era um lixo, que enquanto tirava um cochilo após seu almoço, ele tinha tentado roubá-lo e que foram seus cães e fieis escudeiros que o avisaram da mão leve.
Confesso que estranhei a historia porque o mendigo do bairro é inofensivo! Ele é um cara jovem que foi expulso de casa pelos pais por usar drogas e foi “adotado” pelos comerciantes e moradores que frequentemente lhe dão comida e roupas limpas para vestir.
Acho que já cheguei a comentar com vocês sobre a figura porque é o guardião da pracinha e considerado quase um patrimônio cultural do bairro, pois além de aparar e cuidar da grama e plantas, ele também vende algumas mudas de flores e temperos para quem deseja fazer seu próprio jardim ou horta doméstica.
A pracinha também abriga uma casinha de bonecas de madeira pintada de rosa que é seu refugio e abrigo nos dias de chuva, em noites geladas ou madrugadas silenciosas.
É fato que ele não bate muito bem do bumbo, não! E vez ou outra desfila com chiquinhas na cabeça ou toma banho peladão, mas daí roubar o catador é outra história, né!
Nesse interim, eu vi o seu José, dono do mercadinho, correr em direção dos dois, colocar panos quentes na briga e verbalizar um deixa disso para o catador.
E logo que ele virou a esquina empurrando seu carrinho, ou melhor, sua carrocinha comandada por um de seus cachorros que encontrava-se na proa, nós saímos correndo para levantar o mendigo do chão e ver se ele não tinha quebrado nada.
Chorando, ele falou que a culpa não tinha sido dele e que apenas protegeu seu território da devassa feita pelos cachorros do “bonito”, pois a matilha não só fez buracos no seu jardim particular, como também acabou com as mudas de plantas.
Depois de oferecer um copo de água, seu José ligou para uma assistente social para leva-lo para algum abrigo comunitário por uns dias e até que as coisas se acalmassem novamente e ele pudesse retornar para sua rotina, para sua casinha de bonecas e para suas aventuras afrouxadas e mais leves do que as que nós estamos vivendo nas últimas semanas.
Beijos,
Maria Oxigenada.
Foto: reprodução