“Anda com fé eu vou
Que a fé não costuma faiá
Oh minina!”
As estrofes da música “Andar com fé”, de Gilberto Gil, servirá de pontapé para eu compartilhar mais uma oxigenada aventura com vocês porque como boa contadora de histórias, eu mantenho meus olhos e ouvidos atentos às pessoas que cruzam meu caminho diariamente.
E quando a gente menos espera, surgem diante de nós personagens interessantíssimos, pois eles estão todos soltos por aí e esperando que alguém lhes dê a devida atenção ou se inspirem em suas posturas e comportamentos.
Ontem, foi um desses dias em que a sorte caminhou lado-a-lado comigo no trajeto entre a academia e minha casa, pois enquanto eu estava parada na calçada esperando pela abertura do semáforo de pedestre, encostou ombro a ombro comigo um carinha.
Olhei de rabo de olho para me certificar do pedigree do gato e constatar de que não era nenhum conhecido meu. De repente, ele abriu um sorriso tímido e abaixou sua cabeça. Já gostei! Entretanto, quando também abaixei meu olhar, pude observar que ele estava segurando algo em sua mão direita.
Quis que o semáforo não abrisse naquela hora para ter alguns segundos a mais para identificar o objeto. E quando ele abriu as mãos, deixou que um terço escorregasse pelos seus dedos. Uau!
Pensei: Crush seminarista eu nunca tive!
Nesse instante, a luz verde do semáforo acendeu e ele avançou em direção a rua e eu o acompanhei passo a passo como se estivesse fazendo parte de sua ladainha terrestre.
Não tive coragem de puxar conversa, somente deixei que ele caminhasse alguns passos na minha frente e o scaneei de cima em baixo. Vestia camiseta branca, bermuda caqui, tênis nos pés, além de fones de ouvido. O conteúdo do som não era nenhum mantra atual sobre a importância da higienização das mãos contra o coronavírus, mas sim uma sequencia de aves-maria e pais nosso. Entre uma e outra conta, ele balbuciava algo parecido com o Credo e a Salve Rainha e manteve o ritmo das orações durante suas passadas aceleradas.
Desviei o meu itinerário para ver até onde essa história ia parar e se no caminho nos dois cruzaríamos com uma igreja ou seminário. Que nada! Então,
depois de quatro quarteirões extras, freei minha curiosidade, dei meia volta e desisti da aventura investigativa.
Confesso que fiquei pensativa durante o restante do dia, questionando os motivos dele estar rezando enquanto caminhava. Será que era para cumprir alguma promessa feita? Ou será que ele estava otimizando seu tempo livre e antecipando o tradicional terço das seis da tarde?
Mistério!
Mas uma coisa é fato: andar lado a lado com ele me deu uma paz enorme e eu voltei para a realidade e para casa mais serena, introspectiva, confiante no oculto e no poder transformador de algumas pessoas que cruzam nosso caminho anonimamente.
Guardei em minha memoria o episodio e com certeza eu irei fazer arte dele, pois o personagem merece ganhar cores, camadas extras e até falas para ganhar o mundo e conquistar outras pessoas além de mim e que por ventura se dispõem em aumentar mais uma conta em relação ao próximo.
Até a próxima aventura,
Maria Oxigenada
Foto: reprodução