Nem tanto ao céu, nem tanto a terra! A verdade é que o ser humano é um misto de razão e emoção, pois ora o cérebro fala mais alto, ora quem dá as cartas é mesmo o coração.

E todo esse embate começa quando a protagonista da obra (Mariana Lima) depara-se com um garoto com traumatismo craniano, vítima de um atropelamento recente. Ela é médica-residente de um hospital e está de plantão na noite em que ele chega à urgência local.

A partir do evento, a personagem começa a refletir a respeito de neurociência, sobre como as memorias pessoais são construídas, sobre a linguagem usada pelo coração, ou melhor, a respeito dos caminhos tortuosos percorridos pelas nossas emoções, sobre as características pormenorizadas do cérebro e também a respeito de quem somos e quem deveríamos ser.

Tudo isso é apresentado de maneira fragmentada, através de uma peça conferencia e bem diferente de uma obra redondinha com começo, meio e fim previsíveis, com um enredo linear ou que siga um pensamento binário de outros espetáculos vistos.

Na verdade, o espectador fica diante do fluxo de consciência da protagonista, ou seja, ele acompanha o complexo processo de pensamento da personagem com raciocínio logico entremeado com impressões pessoais momentâneas e com associações de algumas ideias surgidas.

O interessante da obra é que a atriz Mariana Lima costura as cenas com alguns relatos próprios e as falas de sua personagem soam como depoimentos pessoais, apesar de “SIM – Cérebro/Coração” não ser uma obra autobiográfica e ter sido escrita a seis mãos, pois o ator e diretor Enrique Diaz e o diretor Renato Linhares colaboraram para o feitio da trama.
Agora, o melhor desse espetáculo é que diferente dos outros monólogos vistos recentemente e que foram adaptados para os dias de quarentena, este é dinâmico, encenado em vários cômodos de uma casa e não somente diante de uma única câmera, favorecendo a apreensão da atenção dos espectadores e a identificação do cotidiano da personagem com as tarefas exercidas por todos nós.
Além disso, os diretores se utilizaram de recursos como a projeção de algumas falas existentes no roteiro da peça em uma parede branca, localizada atrás da atriz ou o desfoque de algumas imagens como forma de evidenciar a zona nebulosa mental adentrada pela protagonista, ou ainda, a participação do espectador em outros momentos da obra, como quando a conferencista pede para fecharmos os olhos e imaginarmos os limites de nossos corpos.
Assistindo a “SIM – Cérebro/Coração” fica evidente a intimidade da atriz Mariana Lima com o palco e quão profundo ela foi dessa vez para a criação de uma obra através da leitura de livros, tais como: “Em busca do tempo perdido”, de Marcel Proust, como também no resgate de lembranças e lições tiradas a partir de anos dedicados ao teatro, assim do contato com professores de artes cênicas e outras pessoas que compõem essa teia de profissionais atuantes no setor.
Confesso que desde a primeira cena eu me surpreendi com o que estava vendo, pois a peça começou de maneira atípica e com a atriz agachada e escondida atrás de uma mesa, levantando-se abruptamente e apresentando sua personagem da maneira mais despretensiosa do mundo e assim a carregou até o final.
A estética modesta do espetáculo também chamou a atenção, pois há poucos objetos cênicos presentes, entretanto os que ali estão colaboram para dar vida ao texto falado, ajudando na conexão imagética com os órgãos sugeridos do corpo humano, como a replica de um cérebro humano.
O monologo tem duração de 43 minutos, tempo suficiente para um mergulho em questões humanas tão comuns a cada um de nós e esse é o principal motivo pelo qual eu indico a peça em qualquer dia de reclusão social.
Beijos,
Maria Oxigenada
Serviço:
Onde ver: através da página do Sesc no canal YouTube
Foto: reprodução