O período de isolamento social incentivou muitas de nós a partirmos para a cozinha e testarmos receitas, especialmente de pães caseiros. Com isso, uma leva de novas padeiras surgiu assim, sem querer ou sem pretensão alguma.
Cozinhar tem dessas coisas, especialmente o enfarinhar, amassar e sovar pães, mas a real alquimia acontece durante seus minutos de descanso e enquanto as massas crescem e preenchem os espaços vazios de formas e panelas.
Confesso que eu também tenho gasto meu tempo entre receitas familiares, especialmente sobremesas, compotas e geleias. Outro dia mesmo eu resgatei o caderno de receitas da minha avó e passei a tarde toda entre suas páginas açucaradas.
Eu fiz uma descoberta interessante folheando-o, pois percebi que os registros do passado eram diferentes dos feitos hoje e os ingredientes presentes nas receitas eram mensurados usando como parâmetros quantidades de copos, xícaras de chá ou mesmo pratos de comida. Atualmente, quem se aventura através da doçaria sabe que a melhor amiga da confeiteira é a balança digital.
E entre uma receita e outra, eu acabei me detendo nas de festa junina e redescobrindo segredinhos culinários. Eu tinha me esquecido, por exemplo, de que a coloração bronzeada da paçoquinha caseira é obtida pelo uso de amendoins torrados que foram ao forno com casca e tudo para tomar aquele bronze no ambiente fechado.
Outra delicia que precisa ficar imersa em água por alguns dias são as cascas de laranja azeda e espécie de fruta usada na confecção do doce de casca de laranja. Como nas postas de bacalhau, a água usada deve ser trocada varias vezes por dia e durante 48 horas para somente depois ir para o fogo.
Agora, a minha atenção fixou mesmo foi na descrição feita à mão pela minha avó para a confecção de balas de coco. Pura poesia! Ela identificou a delícia como sendo um tecido perolado que precisa de urgência para encontrar seu ponto de corte antes de açucarar por completo, por isso a necessidade de esticar a massa rapidamente entre as mãos, dobrá-la e puxa-la novamente como um pedaço de thera-band.
Vovó me confidenciou que o prego fixo ao lado do batente da porta da cozinha era para ajuda-la na tarefa de fazer as balas porque conforme ela foi envelhecendo e perdendo a força de seus braços, ele a ajudou a manter as tradições e a vontade de adoçar o nosso cotidiano.
Já o segredo para o feitio de uma geleia brilhante é mesmo o uso indiscriminado de açúcar. Eu até já tentei fazer geleia sem açúcar,
acrescentando gotas de limão e misturando duas frutas distintas, mas o resultado não é igual e decepciona as “formiguinhas” de plantão.
Outro escrito interessante encontrado no caderno de receitas diz respeito ao ponto do chantilly. Ela destacou através de uma estrelinha nas linhas finais da página que quando o som emitido pela batedeira se abafar é porque o chantilly está ideal para rechear e cobrir bolos. Incrível! Como eu nunca percebi isso! Fico monitorando os minutos da metamorfose através de um cronometro, há, há, há….
Eu também descobri que a minha avó é bem truqueira e que ela pintava a parte superior das maçãzinhas que enfeitavam as mesas dos meus aniversários na infância não com gotas de tintura comestível e sim, com gelatina vermelha sem açúcar e usada para espessar sobremesas.
E que o ingrediente principal da queijadinha de forno na verdade são cocos frescos e não queijo como sugere o nome do prato. Esses até fazem parte da receita, mas em quantidades menores que a fruta ralada. Já o bolo chamado Mané Pelado eu não sei bem o motivo de ter sido batizado dessa forma porque o único ingrediente usado nu e cru no início da receita é a mandioca.
O fato é que o tempo gasto entre receitas está sendo uma aventura apaixonante e inesquecível desta quarentena e nas quais cozinhas e culturas distintas, bem como tradições e segredinhos culinários estão encontrando um oxigenado ponto de convergência.
Um beijo, um queijo e um cheiro em cada uma de vocês…

Maria Oxigenada
Foto: reprodução