Mais uma para entrar para o currículo pessoal depois dessa reinvenção do teatro promovida pelo Sesc São Paulo durante a pandemia. Desta vez, o monólogo escolhido foi “Diana” que tem o ator Celso Frateschi como protagonista da obra.
O personagem desenvolvido pelo artista é um professor de línguas que leciona em escolas da periferia da capital paulista e que após descobrir que sua mulher lhe traiu com vários colegas de trabalho sai completamente da casinha e é tomado pela desesperança, pela incredulidade, começando a vagar pelas ruas do centro da cidade sem destino definido.
Ele encontra em um banco no Largo do Arouche sua morada e por lá passa seus dias observando o corre-corre das pessoas, o comportamento das pombas e dos vira-latas, além de complementar sua rotina com a leitura de jornais velhos depositados nas lixeiras locais e mendigar por comida.
O protagonista adentra em uma espiral de incertezas e apatia, entretanto sua solidão momentânea é abolida depois que ele se apaixona pela imagem de uma mulher linda, solar e que se apresenta desinibida e em pelo para ele. Trata-se da obra “Saindo do banho”, estátua de bronze criada pelo artista plástico Victor Brecheret. O personagem a batiza com o nome de Diana e com ela trava conversas e encontros noturnos.
O problema é que o lunático é confundido com um militante de esquerda por policiais militares e é levado para um cativeiro, pois a peça é ambientada na década de 60 e nos anos de ditadura militar.
Não preciso nem dizer que ele é completamente esquecido em uma cela e o interessante da obra reside exatamente nesse ponto, ou seja, na reflexão sobre os milhares de mortos, desaparecidos e esquecidos do período, assim como nas pessoas que são invisíveis aos nossos olhos ou aquelas que nós fazemos questão de apagar por completo de nossas vidas e histórias.
E a pergunta que fica é: há semelhanças com os dias atuais? Se há. Basta que vocês abram as paginas de jornais, revistas semanais ou observem as manchetes de sites ou dos telejornais para ficarem cientes sobre o número de assassinados ocorridos em comunidades carentes brasileiras, sobre o crescente numero de episódios de violência policial, doméstica e infantil de hoje, assim como a perda de direitos dos cidadãos e o questionamento a respeito da democracia.
Como era de se esperar, a cenografia de “Diana” é simplista e conta apenas com uma cortina feita com lâmpadas, um penico disposto no palco do teatro Ágora, local onde foi gravado o espetáculo, e com o ator vestindo calça e camisa social, além de uma camiseta e um mijão de algodão por baixo e que só se tornam visíveis nas cenas passadas dentro da cadeia e em momentos em que ele se despe por completo dos títulos acadêmicos acumulados e de todas as mascaras colocadas uma por cima da outra ao longo de uma vida inteira.
Mais uma vez o ator Celso Frateschi comprova que tem o domínio de palco, preenchendo-o com sua presença cênica e com palavras que nos fazem pensar em romper com o breu e a penumbra proporcionada pelo apagar de algumas lâmpadas de lucidez social e governamental do momento.

Eu gostei!

Maria Oxigenada