Cabo de Guerra dos bons! Pena que estava sendo puxado com maior veemência por um dos lados e os espectadores não puderam observar as reações físicas da segunda personagem em cena. Tudo porque a peça “A Mais Forte”, de August Strindberg, foi adaptada para os dias de pandemia e a protagonista da peça chamada madame X (Clara Carvalho) deu o seu recado olhando diretamente para a câmera, deixando de bater aquele bolão cênico que tanto gostamos de acompanhar quando vamos ao teatro.
No entanto, a profissional fez questão de criar uma atmosfera parecida com a encontrada em um café europeu, local onde a peça desenrola-se, em um canto de sua própria casa, distribuindo alguns objetos cênicos pelo local como uma mesa redonda, cadeiras, bule e xicara de café, assim como um abajur, quadros e uma estátua de corpos femininos nus.
E isso só colaborou para a imersão dos espectadores que estavam em suas próprias casas, pois a peça “A Mais Forte” aborda o universo feminino, especialmente as disputas, a falta de sororidade existente no final do século XIX, o patriarcado e o machismo reinante na época e o deixa disso, ou seja, o arquivamento de sonhos e desejos pessoais em prol das vontades de seus maridos e amantes.
Agora, a surpresa do espetáculo reside no encontro entre duas mulheres antagônicas e que ocupavam espaço na vida de um único homem. Uma era a esposa (madame X) e a outra, sua amante (madame Y).
Na véspera do Natal, a esposa depara-se com a amante sentada sozinha em um café, lendo uma revista e faz questão de parar para cumprimenta-la, tirando aquela onda com a bonita e vomitando todos os sapos que engoliu ao longo de anos.
O interessante da obra é observar a virada de jogo da personagem em cena que começa listando alguns dos momentos humilhantes em que passou como ser obrigada a batizar seu próprio filho com o nome do pai da amante do seu marido ou saber que algumas atrizes o seduziam em troca de contratação e papeis de destaque em novas produções teatrais.
Engana-se quem pensa que madame X, ou seja, a esposa não via e não sabia das coisas. Ela tinha total ciência do que acontecia ao seu entorno, mas teve sangue de barata para atrapalhar os planos da principal amante do marido, mantendo-a afastada da intimidade da família e dos palcos.
E a pergunta que fica reverberando em nossas mentes enquanto acompanhamos o desenrolar da narrativa é: será que tem algum homem que valha tanto sacrifício? Sei, não!
O que sei é que apesar da peça “A Mais Forte” ter sido escrita em 1889, ela continua refletindo o comportamento de algumas de nós e a discussão levantada pela obra ainda soa atual em pleno século XXI.
Aplausos para a atuação da atriz Clara Carvalho que conseguiu prender a atenção com as trocas feitas com a lente que, aliás, assumiu o papel da outra personagem feminina. A verdade é que não é fácil segurar a atenção do público, especialmente em um monólogo e com a protagonista ainda sentada praticamente todo o tempo de duração do espetáculo.
E não só o texto de August Strindberg colaborou para isso, como também o figurino usado por Clara em cena e que foi construído com peças pretas, inclusive um xale, além de pequenos gestuais adotados pela atriz que aumentaram ainda mais a carga dramática da narrativa.
É claro que a sessão on-line terminou comigo refletindo a respeito da temática levantada na obra e concluindo que em um cabo de guerra amoroso nenhuma das partes sai completamente vencedora, pois há dores, mágoas e sofrimentos que jamais são apagados ou esquecidos por completo, mesmo que você faça parte do lado mais forte e finalize a disputa com o objeto amoroso ao lado.
Fica a dica de programa cultural para ser feito virtualmente.
Maria Oxigenada
Serviço:
Onde: No canal Youtube e dentro da programação fica em casa com o Sesc.
Foto: reprodução