Do tamaninho ideal para ser degustado alguns minutos antes de dar um jump nos lençóis ou enquanto você toma uma taça de vinho tinto, assim é o monólogo “Eu não dava praquilo”, inspirado na trajetória de vida da diretora e atriz Myrian Muniz.
O único ator em cena é Cássio Scapin, ou melhor, ele é a única pessoa de frente para a câmera, pois o artista aceitou o desafio de adaptar a peça para um formato diferente durante a pandemia e está apresentando a obra olhando diretamente nos olhos do espectador. Vocês sabem como é?
Em 48 minutos de duração, a protagonista rememora algumas passagens cruciais da vida de artista como quando ainda criança já brincava de encenar peças inventadas na companhia de amigos de rua e no quintal de sua própria casa, ou ainda, quando atraída pelos palcos e pelos holofotes tentou ser bailarina e dançarina de músicas espanholas.
Em vão.
Partiu então para a área da saúde e foi ser enfermeira aos 22 anos, mas novamente foi em vão, pois não gostava da atividade. No entanto, não foi em vão ela abrir seu coração e suas percepções aos recados enviados pela vida e, sem querer, Myrian tropeçou em uma escola de artes cênicas, encontrando dentro dela seu lugar de conforto e alegria.
Antes disso, a artista precisou lutar contra sua timidez, suas limitações educacionais e culturais e até contra seus próprios preconceitos para conseguir ingressar no oficio e manter-se ativa e interessante no mercado das artes.
A mensagem passada durante o monólogo é que a atuação não é para qualquer um! A jornada de bons profissionais costuma ser longa e necessita de esforço e humildade para perceber às nuances dos seres humanos, bem como coragem para admitir comportamentos e pensamentos similares aos retratados no palco e fazer várias tentativas para destravar emoções que costumam brecar o próprio desenvolvimento profissional.
Myrian Muniz achava que não dava praquilo, entretanto era uma artista que ostentava vários recursos e diversificou sua atuação com o passar do tempo, ora assumindo sua faceta intérprete, ora sua faceta de professora de interpretação, ora sua faceta de diretora de musicais e programas televisivos.
Ah! Não vamos nos esquecer de seu lado empreendedor porque ela foi uma das fundadoras do Teatro Escola Macunaíma, centro experimental de formação teatral, e que até hoje é referencia na área, soltando novos talentos de baciada no mercado. Que pique, héin!?
E foi com toda espontaneidade, extroversão e atitude que Myrian fincou seu nome na historia da dramaturgia nacional e gozou algumas vezes do sucesso, mas com a total consciência de que ele é efêmero e um verdadeiro perigo!
Perigo porque não é uma constância na vida de nenhum artista. Ao contrário, na maioria das vezes é necessário saber lidar com os fracassos, os nãos, as dificuldades e obstáculos encontrados durante as produções e a realização de projetos, assim como ter vontade para não desistir de fazer tentativas múltiplas para seguir o caminho escolhido porque vocês conhecem o ditado que diz: água mole em pedra dura tanto bate até que fura! Então…
Quanto à estética do espetáculo visto através da telinha, ela é simplista e conta com o ator Cássio Scapin sentado em uma cadeira em frente de uma cortina verde e amarela, vestindo roupas pretas, uma tiara na cabeça e sem quilos e quilos de maquiagem na face, apenas uma base corretiva.
Ah! Durante todo o tempo da peça ele também ostenta um cigarro entre os dedos e segura sua interpretação no gogo, com um vozeirão rouco e impostado, digno de quem foi fumante e de quem soube bem usar a voz como foi Myrian Muniz.
Confesso que eu cai na risada com as caras e bocas feitas pelo ator e me identifiquei com a piração da artista, então para quem busca por entretenimento rápido além das séries televisivas, a minha sugestão é acessar ao canal do Youtube do Sesc e se esbaldar com os monólogos disponíveis de embocadura perfeita para a quarentena.
Eu indico.
Maria Oxigenada
Foto: reprodução