O entretenimento é o mais democrático de todos e acessível a qualquer pessoa que tenha internet em casa ou disponível no celular. Durante a quarentena, companhias de teatro, circenses e de dança estão disponibilizando aos internautas alguns espetáculos de marcaram suas trajetórias.
Há algumas semanas, a Companhia Alvin Ailey American Dance Theater marcou um encontro para às 20h com os espectadores interessados em assistir através do canal YouTube o espetáculo “Revelations”, de 1960.
A história contada durante os 40 minutos que compõem a obra é pautada por episódios de racismo, além de passagens violentas, de feminicídio, cenas de fé e religiosidade, assim como lembranças de épocas escravocratas.
O espetáculo “Revelations” foi criado a partir das memórias e do sofrimento vivido pelo coreógrafo Alvin Ailey, fundador da companhia de dança, pois ele era filho de mãe solteira que como tantas outras se virava nos 30 já naquela época, trabalhando na colheita de algodão ou como empregada doméstica em casas de famílias para não deixar faltar o mínimo em sua mesa.
A verdade é que a dupla gozava de poucos momentos de descanso e diversão, mas estes aconteciam sempre que iam à igreja e estavam diante de coros e danças religiosas, por isso “Revelations” tem uma pegada gospel, é recheado por blues e conta com movimentos soltos dos bailarinos, além de uma coreografia construída com passos de jazz e gestuais semelhantes aos encontrados em danças africanas.
Um ponto interessante do show é observar suas soluções cênicas simplistas, eficazes e que transportam os espectadores direto para as plantações de algodão, para a beira de um rio, ou ainda, para dentro de uma igreja através do uso de tecidos, painéis pintados ao fundo da caixa cênica ou a distribuição de algumas cadeiras sob os holofotes.
O figurino da obra também colabora para melhor ambientação de seu enredo e foi criado privilegiando uma paleta de cores neutras e peças rústicas, como vestidos feitos de algodão tingido e cortados no evasê, ou ainda, saias rodadas e godês que lembram as usadas por nossas baianas. Já os bailarinos se apresentam ora usando calças e dorsos nus, ora calças e camisetas, mas todos dançam com os pés no chão e sem sapatilhas.
Confesso que não conhecia o trabalho da companhia, nem a historia de vida do seu coreografo que, aliás, irá virar filme nos próximos anos produzido pela cantora Alicia Keys e dirigido por Barry Jenkins, o mesmo diretor de “Moonlight: sob a luz do luar” e “Se a rua Beale falasse”.
Quanto à experiência on-line, eu a achei diferente, pois não senti o calor dos aplausos finais e nem a presença das pessoas próximas, mas pude acompanhar e ler os comentários animados feitos por todos que estavam conferindo junto comigo o espetáculo ao vivo e, na ocasião, o número de pessoas ultrapassou a 2.800 conectados.
Apesar disso, fui tocada pela performance dos bailarinos em cena que dançaram de maneira orgânica e colocaram seus corações e emoções no palco, assim como pela narrativa desenvolvida sob os holofotes.
A aventura também me estimulou a pesquisar e saber mais sobre o coreógrafo que faleceu vitima da AIDS, acolheu bailarinos negros que não tiveram oportunidades em outras companhias, além de fuçar nas páginas das redes sociais de seus atuais integrantes, descobrindo que alguns estão dando aulas de dança on-line aos interessados em mexer suas cadeiras durante esta quarentena.
Bora lá assistir outros espetáculos culturais através da telinha!
Maria Oxigenada