A pia da cozinha de casa ganhou vida, ou melhor, foi presenteada pela chegada da morte porque anda mais podre do que nunca! Tudo começou depois que mamãe fez sua tradicional moqueca na sexta-feira santa.
Para quem não sabe, o prato é um dos meus preferidos e a junção de ingredientes e sabores tão distintos como leite de coco, azeite de dendê, pimentões, cebola e coentro banhando e rodeando as postas de peixe é o que mais me encanta nesta delícia.
Não é de hoje que nós redescobrimos os prazeres à mesa e durante a quarentena estamos valorizando cada vez mais fazermos nossas refeições conjuntamente e não somente aos finais de semana.
O primeiro capítulo da aventura vocês já imaginam como foi, mas o segundo começou depois que eu passei água nos pratos antes de acomodá-los dentro da lava-louça para a realização da higienização verdadeira.
Na sequencia e já que estava com a mão na massa, aproveitei para limpar a pia com água e detergente e retirar os restos de alimentos depositados no ralo. Achei que havia resolvido o problema de odores fortes na cozinha e provenientes de pescados, mas que nada!
A novela estava só começando porque todas as vezes que alguém aciona a torneira da pia para lavar uma fruta, legume ou verdura, o cheiro de peixe ressurge como um fantasma brincando de nos assombrar.
O mais engraçado é que a aventura virou uma espécie de onde está o Wally? E tanto eu, como a mamãe e até a vovó iniciamos uma saga atrás de partes de cadáveres dentro da tubulação ou estacionados em alguma parede interna.
Outro dia, eu vi o vovô passando com o litro de água sanitária nas mãos e indo em direção a pia com halitose. Ele derrubou meio litro do produto na boca aberta e nada! Já o papai chegou armado, portando um desentupidor embaixo do braço na esperança de resgatar algo conhecido, mas os mortos que voltaram à superfície eram outros e de longa data.
Várias vezes, eu me agachei no chão e olhei em baixo dos armários para checar se o Almondega não tinha escondido um pedacinho de peixe ou arrastado para cima do tapete um pouco de molho.
Foi inevitável, mas lembrei-me imediatamente do filme “O cheiro do ralo”, de Heitor Dhalia, com o ator Selton Mello interpretando o protagonista da obra chamado Lourenço.
Na esfera real, estávamos envolvidos e tentando solucionar o mistério da pia que fede! Nós chegamos até a fazer uma reconstrução das cenas daquela
sexta-feira, entretanto as investigações não avançaram muito além do descrito acima e a partir daí passamos a conviver com as rajadas de mau cheiro que iam e vinham como se acompanhassem a movimentação das águas oceânicas.
E inexplicavelmente e após alguns dias, o cheiro sumiu! Do nada! Fiquei pensando em um estratégico recuo deste e da possível formação de ondas mais fortes e fedorentas, mas não!
O tsunami mal cheiroso quase nos nocauteou e foi embora sem deixar rastros ou boas lembranças! O que ficou foi o enigma da pia com problemas de digestão e o estresse causado em todos nós pela queimação das vias fluidas de nossos pensamentos.
Mistério…

Maria Oxigenada
Foto: reprodução