Fala sério, Oxigenadas! Duvido que vocês não estejam caindo de boca nas ofertas virtuais do momento. Desde cursos, palestras, conversas on-line até filmes, séries televisivas e espetáculos, o negócio para passar os dias de isolamento social bem e produtivamente tem sido recorrer às telinhas.
Eu mesma já montei uma rotina para não ficar alienada culturalmente e também imprimir certa leveza aos dias de confinamento. Frequentemente, eu pego o cardápio virtual, corro meus olhos pelas opções disponíveis e dou play nas aventuras que mais me agradam.
E como o clima pesou esta semana com a disparada de mortes em decorrência do Covid-19, eu optei por rever a peça teatral “Cócegas” com as atrizes Heloísa Périssé e Ingrid Guimarães.
A minha escolha foi pautada pela sua trajetória bem sucedida no inicio dos anos 2000 e por ser uma obra que permaneceu em cartaz durante 11 anos e só perde para a peça “O Mistério de Irmã Vap”’.
Recentemente, a atriz e autora Heloísa Périssé disse que está reescrevendo o espetáculo, pois em 2021 a obra completará 20 anos de sua criação e a dupla de protagonistas tem a intenção de percorrer todo o Brasil com a sua nova roupagem.
Na montagem vista on-line, nove esquetes diferentes foram apresentados, provocando o publico com personagens femininas distintas e que continuam a existir e a nos rodear hoje, tais como: a típica mulher do século XXI que pensa ser uma heroína de histórias em quadrinho, tamanha a carga carregada nas costas, e que se multiplica para dar conta de todas as suas responsabilidades pessoais e profissionais.
Na ocasião, as atrizes soltaram os cachorros no palco, ou melhor, as cachorras, construindo sob os holofotes o estereótipo da mulher que faz de gato e sapato a homarada, além de espichar o olhar para suas carteiras recheadas e para seus créditos bancários.
O inverso também é lembrado e as mulheres encalhadas e neuróticas, bem como as mulheres invisíveis espalhadas pelo Brasil, ou seja, aquele tipo que sequer é notada pelo marido dentro de casa e que faz tudo para chamar sua atenção marcaram presença no espetáculo visto.
Isso sem dizer nas adolescentes e na oportunidade que a dupla teve de tocar em várias temáticas, desde o uso de drogas, problemas de baixa autoestima, de relacionamentos interpessoais, especialmente com os pais, e de comportamentos rebeldes típicos da fase.
Tudo isso acaba criando gancho para a apresentação de outro tipo de mulher, ou seja, aquela que sonha em modelar, em estampar capas de revistas e desfilar para grandes marcas internacionais. É! Elas ainda existem! E o pior é que algumas até se sujeitam a grandes sacrifícios físicos com potencial para o desenvolvimento de problemas psíquicos ou doenças como bulimia, anorexia, entre outras.
Ah! Não podemos nos esquecer das mulheres que dizem ser tementes a Deus e que encontram na religião o caminho para manter-se anestesiadas diante das loucuras e desafios dessa vida. Confesso que algumas cenas de “Cócegas” me remeteram a outras duas peças que também tocam na temática. São elas: “Irmã Selma e seu terço insano” com o ator Octávio Mendes e “Terça Insana”, com Grace Gianoukas.
O bacana do espetáculo assistido foi perceber que alguns esquetes feitos foram baseados em fatos reais ocorridos nas vidas das atrizes como o episodio em que as duas ainda coadjuvantes fizeram participações minúsculas em programas televisivos de uma grande emissora de TV, sujeitando-se a papéis como os de bichinhos de pelúcia. Hilário!
Outro fato interessante de “Cócegas” é que há o envolvimento da plateia no desenrolar da peça. Tanto é verdade que o apresentador Serginho Groisman não passou despercebido e subiu à caixa cênica para fazer uma participação surpresa.
Tudo isso é purpurina jogada nos olhos de quem estava no local na ocasião, pois o melhor do espetáculo foi perceber o timing de comedia das duas protagonistas, assim como o entrosamento cênico e a cumplicidade das duas amigas.
“Cócegas” é um programa cultural leve, divertido e ideal para ser visto em qualquer época, pois foi construído com personagens atemporais. No entanto, algumas piadas e esquetes precisam receber uma nova mão de tinta da artista Heloísa Périssé.
Tô ansiosa pela sua nova versão!

Maria Oxigenada
Foto: reprodução