Puxaaado! Têm dias, ou melhor, têm noites que o Almôndega me tira do sério! E a última foi uma daquelas para entrar para a história familiar, pois perturbou e tirou o sono de todo mundo.
Agora, eu estou me escorando pelas paredes da casa, além de ostentar olheiras de panda e um peso na cabeça como se tivesse um tijolo dentro dela e aquela sensação de ressaca e de noite mal dormida. Mereço!
E, pelo visto, não foi somente a noite que foi longa, não! O dia de hoje também promete ser infindável! O pior de tudo é observar o “bonito” estirado no tapete da sala roncando e recuperando sua cútis como se não houvesse amanhã…
Rebobinando os acontecimentos de ontem… a casa se aquietou antes do horário costumeiro por causa das temperaturas baixas e eu também não fiquei lutando contra o sono e resolvi embarcar conjuntamente, indo para cama logo depois de ter conversado com o Fê.
Pois bem! Passados algumas horas em que estava desmaiada embaixo do edredom, eu comecei a ouvir latidos insistentes do Almôndega. Em um primeiro momento, o ignorei por completo, virei de lado e apertei um travesseiro sobre minha orelha esquerda.
No entanto, ouvi ao fundo meu pai levantar-se e arrastar seus chinelos até o jardim para investigar o que estava acontecendo de verdade. Nesse momento, eu pulei da cama, me embrulhei em um roupão e o segui até o local.
O Almondega correu em nossa direção para nos alertar do perigo. Achei até que alguém havia colocado alguma droga ou estimulante em sua ração ou pote de água porque o animal estava elétrico, correndo sem parar em volta da piscina e pulando insistentemente nas minhas pernas.
Cogitei a possibilidade de ele ter recebido a visita de algum saruê que estava em busca de comida fácil e que no momento está com liberdade para circular entre as árvores e pelas casas até de centros urbanos.
Tenho certeza de que vocês viram vídeos de animais silvestres que estão invadindo ruas e lugarejos durante a quarentena, né? Confesso que eu rolei de rir com alguns deles, especialmente aquele, onde veados tomavam banho de sol nos jardins de casas em Harold Hills (Inglaterra) ou aquele que os patos banhavam-se em uma fonte em Roma (Italia) ou ainda, o de um puma circulando pela cidade de Santiago (Chile).
Nem uma coisa, nem outra! O Almondega não estava incomodado com a visita de um saruê ou a presença de um animal silvestre e sim, com a fritada de uma pomba ocorrida entre os fios da cerca elétrica.
Eu e papai demoramos minutos para descobrir onde o corpo da ave estava depositado, pois meu melhor amigo resolveu esconde-lo entre os pés de primavera e crotalaria que, aliás, foram plantados para servir como repelente natural aos mosquitos da dengue que continuam circulando e incomodando em pleno outono.
Com a ajuda de uma lanterna, vi algo cinzento depositado no pé da árvore de flores amarelas e corri para lá para identifica-lo enquanto o Almondega executava saltos acrobáticos em minha frente como um verdadeiro integrante do Cirque de Soleil.
Não tive outra escolha a não ser envolvê-la em um trapo e pensar por alguns segundos no que fazer com seu corpo desfalecido. Em um primeiro momento achei que o melhor seria descarta-la em um saco de lixo. Já em um segundo instante, eu pensei em enterra-la no jardim, mas eliminei essa opção porque com certeza o Almondega teria o trabalho de desenterra-la.
Pensei então que a ave poderia servir de adubo para a terra, então corri no quartinho da bagunça, peguei uma pá e um balde vazio e acompanhei papai até o terreno baldio existente na quadra posterior à nossa.
Descobri um cemitério por lá e não era de vitimas do Covid-19, não! Mas sim dos pets da vizinhança. E com três ou quatro movimentos, papai abriu uma cova rasa para a pomba e eu a coloquei no buraco sem qualquer cerimonia de despedida ou sentimento de perda.
Na volta, papai tentou por várias vezes acionar a cerca elétrica, entretanto esta se recusou a armar suas defesas novamente, exigindo a presença e visita de um técnico durante esta manhã.
Só espero que a próxima fritada doméstica aconteça na cozinha e envolva ingredientes, tais como ovos batidos e legumes cozidos que já estejam criando raízes ou soltando ladrões (galhos extras) dentro da geladeira, há, há, há…
Até a próxima aventura,

Maria Oxigenada
Foto: reprodução