Quem nunca? Eu já. E não tenho vergonha alguma em dizer que recorri a alguns livros de autoajuda e vídeos motivacionais, tais como “O Segredo” e o filme “Sim, Senhor!” protagonizado pelo ator Jim Carrey para conseguir enxergar alguns episódios pessoais sob uma perspectiva diferente.
Os dois trabalham com o positivismo, com o poder da palavra sim e com a abertura às novas possibilidades, oportunidades e caminhos que se apresentam diante de nós. E a mensagem passada nas duas obras é clara e de que a vida pode ser modificada com a adoção de uma mudança postural e mental, mas a verdade é que nem tudo o que lhe é apresentado deve ser abraçado ou levado a diante, né!
A película nacional “O vendedor de sonhos”, adaptação do livro homônimo de Augusto Cury, segue o mesmo fluxo das obras citadas acima e é interessante de ser vista neste momento em que paira no ar uma desesperança no futuro e certa descrença na humanidade, pois o que temos visto é a força destrutiva de um vírus invisível, presente em todos os continentes.
No entanto, nós também estamos enxergando uma onda de solidariedade e amor ao próximo porque artistas, empresários e a sociedade no geral estão mobilizados para ajudar nações carentes, assim como pessoas em situação de vulnerabilidade financeira.
Não há como fechar os olhos para a dor do outro. A dor da perda de entes queridos, a dor dos necessitados, a dor pela privação do contato físico, a dor pela ausência de despedidas, a dor dos endividados e daqueles que tiveram seus trabalhos findados e, especialmente a dor do esquecimento.
Como dói tudo isso!
No filme, a dor que embaça o discernimento do psicólogo Júlio César (Dan Stulbach) é a do fracasso da paternidade. É ela quem o conduz até o 21 andar de um prédio na intenção de colocar ponto final em sua própria vida e no seu sofrimento.
O suicídio é assunto levantado duas vezes na película, mas não acontece em frente às câmeras, pois o personagem é impedido pelo Mestre (César Trancoso), um sábio mendigo que sobe até o local para persuadir Júlio Cesar.
A conexão improvável acontece e os dois acabam criando vínculos de amizade e realizando algumas trocas de experiências, pois ambos têm o que ensinar um ao outro e também para outras pessoas, particularmente as mergulhadas em dinâmicas consumistas e valores superficiais.
Com isso, uma legião de novos seguidores começa a se interessar pelo discurso, especialmente o proferido pelo Mestre porque suas palavras acabam
atraindo a atenção não só da mídia, como também de executivos e homens bem sucedidos.
Afinal de contas, quem é o homem sábio em baixo dos trapos vestidos? E aos poucos, o espectador conhece sua real identidade, parte de sua historia pessoal e começa a traçar paralelos com as figuras vistas diariamente nas manchetes de jornais e revistas e em reportagens televisivas.
“O vendedor de sonhos” não tem a intenção de se aprofundar nas temáticas tocadas e é uma obra repleta de clichês. Entretanto, o filme mostra-se relevante, pois puxa um fio de esperança por dias melhores pós-pandemia.
Outro ganho é que ele conta com dois bons atores protagonizando a história e a dupla apresenta interpretações sensíveis e compatíveis com o arco-narrativo de seus personagens.
O filme tem locações que colaboram para a ambiência da obra e a compreensão do ritmo e dos problemas presentes no século XXI, como as desigualdades sociais, as diferenças econômicas, bem como o resultado da falta de dialogo, da convivência familiar e das consequências do distanciamento social.
A verdade é que a película “O vendedor de sonhos” funciona como um lembrete de que agora é o momento ideal para realizarmos as mudanças necessárias e postergadas, para nos adequarmos a um novo estilo de vida, onde a simplicidade, as pessoas e os vínculos com nossas historias individuais sejam prioritários e representativos de nossas lembranças e sonhos ainda não colocados à venda ou leiloados.
Até a próxima aventura,

Maria Oxigenada