Quando a piração é boa, eu tô dentro sempre! Adoro observar como a loucura alheia é retratada em obras de arte, em peças teatrais, em filmes e espetáculos de dança.
Confesso que tenho uma atração atípica por figuras e personalidades que saíram da casinha com o passar do tempo e tiveram um fim trágico ou muito triste. E sem uma intenção prévia acabo indo ao encontro de biografias e pesquisando a respeito de seus trabalhos e processos criativos.
Esse é o caso da artista Camille Claudel, pupila e amante do escultor francês Auguste Rodin, que terminou seus dias internada em um hospital psiquiátrico. Imaginativa e arrojada para a época, Camille foi diagnosticada como sendo esquizofrênica e portadora de transtornos mentais, mas após sua morte os críticos de arte reconheceram seu talento, o valor de seu trabalho e suas contribuições para o mundo das artes.
Tanto é verdade que um dos espetáculos de balé que continua reverberando em minha memória e é um dos meus preferidos até o momento é “Rodin”, visto anos atrás do teatro Colón, em Buenos Aires. A história narrada nos palcos conta sobre o envolvimento dos dois artistas, evidenciando os estragos feitos na vida e na mente de vitimas de relacionamentos tóxicos e abusivos como foi o caso de Camille. Eu amei o espetáculo! E saí condoída do teatro com o sofrimento passado pela escultora.
Pois bem! No ultimo final de semana, eu me deparei com a oportunidade de assistir a outro espetáculo de balé, onde o fechamento da obra acontece dentro de outro sanatório e com a protagonista sofrendo com pesadelos e lembranças dos horrores da guerra.
Tá, tá! Eu sei. O enredo desenvolvido por “Anastasia” não tem nada a ver com o espetáculo citado acima, mas a loucura tá lá, sendo revelada aos poucos no terceiro ato da obra e através dos gestuais, das expressões faciais e dos conflitos emocionais enfrentados pela bailarina principal.
O mais incrível é que para construir esse terreno disperso de suas recordações houve um trabalho conjunto do coreógrafo, do cenógrafo e do figurinista do The Royal Ballet de Londres (U.K) que recorreram às fotografias em branco e preto da Revolução Russa, bem como imagens do período furtuito que antecedeu à guerra ou cenas de reuniões sociais da Dinastia Romanov lembradas por Anna Anderson ou Anastasia.
O figurino usado pelos artistas em cena e que vestiu sua protagonista com um vestido cinza, simples e feito de algodão evidenciou ainda mais a solidão, a vulnerabilidade e a zona nebulosa percorrida pela personagem principal durante o terceiro ato e isso foi ainda potencializado com a presença de objetos cênicos como uma cama hospitalar de outrora e a replica de um quarto frio e impessoal visto nesses lugares de acolhimento.
Agora, o mais legal de tudo foi ficar diante da performance do bailarino brasileiro Thiago Soares, pois ele integrava o corpo de baile da companhia britânica e na ocasião vestiu as vestes de um frei. Hoje, Thiago Soares trabalha como coreógrafo e diretor de espetáculos de dança, mas vez ou outra ainda calça suas sapatilhas e dá o ar da sua graça em palcos nacionais e internacionais, fazendo parcerias com outros profissionais atuantes na área como o pianista Marcelo Brakte em “Sumaúma”, homenagem feita em 2018 à natureza.
“Anastasia” não é uma peça fácil de ser assistida, especialmente os dois primeiros atos porque eles estão cansativos, mas o terceiro compensa qualquer desconforto anterior, por isso eu a indico.
Para quem curte ficar diante de historias de vida com desencaixes emocionais e com pontos de junção em comum, “Anastasia” é outra opção para vocês se entreterem e se encantarem durante esta quarentena.
Beijos,
Maria Oxigenada
Foto: reprodução