Sonhos de uma noite de verão

As noites do último verão deixaram saudades! Elas eram pura alegria e descontração! Agora, o entardecer mudou! No momento, eu ando flanando entre lives distintas: live louça suja, live da faxina, live da bateção de panelas, além de liver a calçada diariamente. Ninguém merece!
Sinceramente, as demais lives também já deram, né!? Depois da enxurrada inicial feita pelos sertanejos, da mega live envolvendo artistas do mundo todo e organizada pela cantora Lady Gaga e do show promovido pelo DJ Alok em sua própria cobertura, eu voltei minha atenção a outros espetáculos culturais.
E ainda bem que algumas companhias teatrais e de dança estão disponibilizando seus espetáculos on-line. Semana passada foi a vez da Ópera de Paris fazer a sua parte e veicular o balé “Sonho de uma noite de verão”, de William Shakespeare.
Escrita entre 1594 e 1596, a obra tem como fio condutor o amor e a face mais secreta do sentimento. A narrativa começa abordando os compromissos do duque Theseus, pois o personagem está prestes a se casar com Hipólita, mas antes de concretizar o matrimônio ele precisa resolver uma pendenga, pois Egeus quer invocar uma lei para obrigar Hermia, filha de Theseus, a se casar com Demetrius. Vê se pode isso?

Caso a “bonita” não concorde com a união arranjada, ela será obrigada a ir para um convento, tornando-se freira. O problema é que a personagem feminina ama outro homem e seu nome é Lysander.
Ironicamente, há a formação de um triangulo amoroso no enredo porque Helena ama Demetrius, o pretendente de Hermia, mas ela dificilmente conseguirá algo mais com o “boy magia”. E enquanto os mortais tentam resolver todos esses perrengues do mundo ficcional, a obra abre espaço para a presença de seres encantados como elfos, fadas, inclusive para o rei dos duendes chamado Oberon que ordena ao seu servo Puck que coloque filtros nos olhos dos mortais.
A graça da historia consiste justamente nas trapalhadas e erros cometidos por Puck e nas confusões criadas no interior da floresta, pois há um desentendimento entre o rei Oberon com a rainha das fadas chamada Titânia e a discórdia entre eles resulta em outro feitiço e na paixonite da fada-mor por um ator amador com cara de burro.
São tantas, mas tantas as artes feitas por Puck que o resultado é o enovelamento de vários outros personagens na trama, assim como o amor repentino de Lisandro e Demetrio por Helena, jogando para escanteio e completamente de lado Hermia.
Aos poucos, a ponta do novelo é puxada e a historia caminha para seu desfecho nada trágico. Mas o interessante é que ela trás à luz assuntos importantes como a liberdade feminina, o patriarcado da época, bem como a possibilidade de relações fluidas.
Quanto à apresentação virtual vista, eu achei dinâmica, alto astral e colorida, muito por conta da presença de um figurino construído com tonalidades e tecidos diferentes e por uma cenografia que fez questão de reproduzir uma floresta encantada.
Gostei mais ainda de ver imagens da orquestra em ação e o balé dançado pelos musicistas em parceria com o maestro. Isso tudo fez com que eu pudesse sonhar com noites mais agradáveis e leves durante este outono atípico e permanecesse por alguns minutos longe de lives concretas do cotidiano.

Mais que aprovada a adaptação feita da peça teatral para o balé!

Maria Oxigenada